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Tratando da saúde - 15/12/1970
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1970 Bissau
- Porta de armas do Quartel de
Brá |
1970 Bissau
- Casernas do Quartel de
Brá, ao fundo casernas da Companhia de
Comando, separada deste por uma rede |
1970 Bissau
- Impresso
para alojamento |
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O facto de termos sido obrigados a beber águas
estagnadas, durante a operação realizada no Morés (operação "Jaguar" que
decorreu durante 17 dias de 25/5 a 10/6/1970), dada a falta de água, acabou
por nos causar problemas de saúde, e a medicação dada pelo médico de Bissorã,
não conseguiu eliminar os vermes que se desenvolviam no estômago, acabando este
por começar a enviar a 15/12/1970 doentes para Bissau, mas para não desfalcar a companhia, seguiram
alguns num mês e outros noutro.
Em Bissau as normas definidas estabeleciam que só se
podia ficar ali em tratamento no máximo 1 semana, devendo regressar-se ao mato,
e só se podia retornar a Bissau 1 mês depois, o que apenas deu tempo para fazer analises na primeira
ida.
Esta situação fez a doença agravar-se devido aos
vários meses sem medicação adequada.
Apenas
na segunda ida a Bissau foi possível ao médico prescrever a medicação adequada,
mas dado o estado avançado da doenças, a receita foram 2 frascos de comprimidos
por dia, um com 20 e outro com 30 comprimidos, acompanhados da frase "ou morrem
os bichos ou morre você", os bichos morreram, mas a violência do tratamento
criou outros problemas.
Curiosamente em Bissau não existiam instalações para os
furriéis que vinham do mato, os soldados tinham, os sargentos tinham, os
oficiais tinham, mas os furriéis não.
Esta situação, obrigava os furriéis a dormirem nas
casernas destinadas aos furriéis do Depósito de Adidos (sedeado no Quartel de
Brá, local onde nos devíamos apresentar), sem a devida autorização de pernoita, sendo
perseguidos pelos cabos que as controlavam, tentando detectar os intrusos, e
pelas ameaças dos comunicados do major que comandava o aquartelamento de Brá, de
que levavam 2 ou 5 dias de detenção (não me lembro bem da pena).
O esquema para conseguir cama, consistia em levar
alguns lençóis e fazer uma cama, numa das camas vagas, nas várias casernas
existentes, como não existiam camas marcadas o cabo apenas se apercebia, que
existia uma cama indevidamente ocupada, mas não sabia qual, assim era preciso
levantar cedo para o cabo não nos apanhar na caserna, ou tapar a cabeça com o
lençol caso ele aparecesse.
A fúria do major por esta falha devia ser grande, a
julgar pelas ameaçadas dos seus comunicados, e porque o cabo não largava as
casernas, tentando identificar os intrusos, o que obrigou a uma debandada
temporária, e o recorrer a outros estratagemas, como tirar as divisas e ir
dormir com os soldados, onde não havia qualquer controlo.
O major era conhecido pelo gosto de aplicar castigos, e
de vez em quando ouvia-se "vem ai o major" e as ruas ficavam desertas, ao
principio apenas os que estavam orgulhosamente confiantes no brilho das suas
botas, no vinco impecável das calças, etc., se deixaram ficar, mas o major não
deixava escapar um, lembro-me que uma vez castigou um, porque achou que o
comprimento da fita da boina tinha mais 1 centímetro...
Face ao exposto anteriormente, ninguém mais se atreveu
a ficar por onde o major passasse, este provavelmente infeliz por não conseguir
"lixar" a vida a ninguém, demonstrou que não era por acaso que tinha andado a
estudar estratégia militar, assim arranjou uns binóculos, e da sua janela
observava os incautos, enviando um cabo para os chamar, sempre que desconfiava
ou via alguma irregularidade.
É pena que este
empenho do major, não tivesse sido aplicado de forma mais positiva nas áreas à
sua responsabilidade, como por exemplo na resolução do problema dos furriéis do
mato que passavam pelo Depósito de Adidos, o qual os enviava
para o Quartel General, mas ai estes respondiam que havia um engano, e
mandavam-nos embora pois não pertencíamos ao QG, e assim ficavam sem ter para
onde ir.

Hospital Militar de Bissau (2)
Nestas andanças
conheci, vários camaradas com situações deveras difíceis, um deles
tinha sido evacuado para o Hospital Militar de Bissau,
onde lhe engessaram totalmente uma perna, e lhe deram alta, porque não se
justificava a sua permanência no mesmo, pois podia recuperar fora do hospital
Ao apresentar-se nos Adidos, aplicaram-lhe logo a regra
"não podes estar mais de 7 dias em Bissau se não está internado no hospital",
assim foi-lhe dito que ia voltar para o mato, e
por "sorte" até havia uma coluna que partia dentro de 2 ou 3 dias para o seu
aquartelamento, ele bem reclamou, bem voltou ao hospital para o internarem, mas
de nada valeu.
Este camarada estava num aquartelamento do sul (não me
lembro do nome), e contava que as colunas na melhor das hipóteses eram de 3 em 3 meses,
o que não lhe permitiria regressar dentro de 1 mês como os médicos lhe tinham
indicado, pois para fazer uma coluna era necessário aviões a bombardear, e páras
e comandos a fazer protecção à mesma, havendo sempre "porrada de criar bicho",
como esperavam que ele saltasse da viatura numa emboscada ....
Outra arma que travava estas colunas era a
existência de "fornilhos", tratava-se de grande quantidade de
explosivos muito enterrados no chão, numa caixa ou bidão, em que se adicionada
por vezes granadas velhas ou metais.
Os "fornilhos" não eram passíveis de serem
detectados pela "picagem da estrada", apenas com detectores de minas
estes poderiam
ser detectados, mas dada a quantidade enorme de munições vazias existentes na
estrada, estes passariam o tempo todo a apitar, e seriam ineficazes.
Dois fios (enterrados no chão) partiam do "fornilho"
até um guerrilheiro, que escondido na mata, o fazia detonar, no momento mais
adequado, enfim um inferno (na Guiné cada um tinha direito a um inferno
privativo, e havia sempre outro pior que o dele).
Numa das idas dos
Adidos em Brá, para Bissau, fui numa motorizada que me emprestaram, e no caminho um
carro civil, aproximou-se por trás, e quando encosto à berma, e faço sinal para
ele passar (estrada larga, com 2 faixas de rodagem alcatroadas, e não existia
qualquer outro movimento na altura), surpreendentemente o condutor do carro,
atira o carro para cima da motorizada.
Apesar de ter
conseguido acelerar e fugir, o carro não desistiu e acelerou tentando o derrube
e o atropelamento, apesar de colocar a potência da motorizada no máximo, o carro
ganhou rapidamente terreno, e perante um derrube iminente, a solução foi sair
fora da estrada, para terreno onde não me podia seguir.
Fora da estrada,
um buraco no terreno irregular, travou bruscamente a motorizada e a
velocidade a que ia deu origem a um longo voo, onde o braço que serviu de "roda" de
aterragem ficou ligeiramente ferido, nada que uma paragem no Hospital Militar um
pouco mais à frente não resolvesse. O carro continuou o caminho para Bissau.
Este incidente,
fez-me pensar que um outro atropelamento a que tinha assistido, em que num
cruzamento, um camião civil, contra todas as regras, e numa atitude
incompreensível passou por cima de um militar numa motorizada, não tenha sido
acidente.
Publicado em 15/04/2006, e revisto em 21/07/2006 por Carlos Fortunato
Crónica de
Carlos Fortunato, ex-furriel da CCaç. 13
(1) Fotos de
Carlos Fortunato, ex-furriel da CCaç. 13
(2)
Fonte da foto: site da CCAÇ. 1496 em http://guinecolonial.home.sapo.pt/
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